LENDA DO BARCO MOLICEIRO

 Há muitos, muitos anos, havia um pescador da Ria de Aveiro chamado Ramiro, órfão de pai e mãe que foi criado por uma madrinha muito boa, mas muito feia e que, por causa disso, nunca chegou a casar.
Certo dia, andava Ramiro na faina, quando ouviu um canto doce de mulher e encaminhou o barco para o lugar de onde vinha o som. Deparou-se com uma jovem muito bonita que tomava banho sem roupa... e aproximou-se.
Ela estendeu-lhe a mão, conversaram longamente e ele pediu-a em casamento.
Triste por não poder aceitar, ela explicou que não era mulher, era sereia e que, como filha mais nova do Rei dos Mares, estava destinada para casar com um tritão de quem não gostava. Então começou a chorar e as lágrimas transformavam-se em pérolas que boiavam na água à sua volta.
Ao vê-la chorar o pescador disse logo e que até era capaz de construir uma casa metade na terra, metade na ria, para poder servir para os dois.
Não podia ser, o tritão era muito feroz e matála-ia. A única hipótese seria se ela se pudesse transformar em mulher.
Todos os dias, antes de ir lançar as redes, Ramiro ia ao sítio onde tinha encontrado a sua sereia, mas ela nunca mais apareceu.
Vendo-o assim tão triste, a madrinha aconselhou que fosse à "ti Bárbra", uma mulher de ciência, que talvez soubesse uma maneira de transformar uma sereia numa mulher e assim poderiam ser felizes.
Ansioso que estava por resolver a situação, Ramiro prontificou-se a ir imediatamente. Mas a madrinha explicou que só poderia ir de noite porque a "ti Bárbra" só tinha poderes depois de o sol se pôr.
Não foi naquele momento mas, assim que o sol se pôs, Ramiro meteu pés ao caminho. Andou muito tempo pelas dunas, até que chegou perto de uma choupana de frente para o mar.
Nessa altura, o vento tornou-se muito forte para o empurrar para trás, os relâmpagos eram tão fortes que o obrigavam a fechar os olhos para não ficar cego, os trovões eram tão tenebrosos que a terra tremia, a chuva era tanta que se sentia molhado até aos ossos. mesmo assim, nunca desistiu!
Chegou à porta da choupana, bateu e gritou:
- Ti Bárbra.
A porta abriu-se e apareceu uma velha senhora toda vestida de negro, com uma vela na mão, igualzinha às feiticeira descritas nos livros de estórias e disse-lhe com voz desafinada que entrasse que ela já sabia ao que ele vinha.
Dentro da choupana havia uma fogueira a arder com um caldeirão a ferver e, em cima da mesa, três gatos pretos a dormir e uma caveira. Mesmo sendo valente, Ramiro teve medo!
A velha Senhora percebeu o medo de Ramiro e pô-lo à vontade. Explicou que a caveira não é mais do que aquilo em que se transformam ricos e pobres e o estado em que se acaba, quer se seja bom, quer se seja mau. Também lhe disse que já sabia ao que ele vinha e que o que lhe ia dizer para fazer não era difícil, mas só podia ser feito uma vez, se alguma coisa falhasse, tudo ficaria perdido.
Primeiro teria que construir uma casa de madeira na duna do sítio que chamavam Costa Nova e pintá-la com riscas da cor que mais gostasse, alternando com branco por causa do mau olhado.
Depois era preciso pescar a lua cheia. Meter-se no barco, navegar até que visse toda a lua reflectida na água, lançar a rede devagar, meter toda a lua lá dentro e trazê-la com cuidado para a casa nova e atirar com a rede lá para dentro. Nessa altura a sereia vai sair do mar em forma de mulher e entrar em casa.
Mas havia algo muito importante e que não podia falhar para que tudo desse certo, nem a lua o poderia ver, nem poderia haver o mais pequeno ruído até que a lua entrasse em casa dentro da rede, nem podia contar a ninguém, nem mesmo à madrinha.
Ramiro, decidido foi e ainda mais decidido voltou. Deitou mãos à obra e fez tudo como a "ti Bárbra" tinha dito que fizesse.
Levou três meses a construir a casa e, na proa do barco, fez um acrescento em forma de quarto crescente onde se poderia esconder para não ser visto pela lua.
Esperou pela lua cheia e fez-se ao mar até ao sitio onde viu a lua toda reflectida na água. Lançou a rede com cuidado, apanhou a lua toda, meteu-a com muito cuidado dentro do barco, transportou-a até ao areal mas, ao sair do barco, quase pisou uma gaivota que acordou e soltou um grito.
Quando o grito da gaivota se espalhou pela praia, a bola branca desfez-se dentro da rede e tudo ficou perdido.
Ramiro meteu-se no barco, navegou até ao outro lado da ria onde havia umas covas no chão e chorou mil dias e mil noites seguidas sem parar, enchendo as covas de lágrimas que o sol secou e transformou em sal.
Ainda hoje se podem ver as salinas das lágrimas que Ramiro chorou. As casas que se construíram a seguir na Costa Nova por terem gostado do modelo de Ramiro, continuam a ser pintadas com riscas coloridas que alternam com branco e o moliceiro ainda hoje tem uma proa em forma de quarto crescente.


Estamos a visitar: AVEIRO - PORTUGAL    




MALASSADAS

Entre a Pedra dos Estorninhos e o Salto da Farinha há um caminho para fazer.
A meio do caminho, quero dizer, meio do caminho é uma força de expressão, muito mais perto da Pedra dos Estorninhos do que do Salto da Farinha, fica o parque de estacionamento onde deixámos o carro. Deixámos o carro e deixámos a senhora da carrinha branca.
A senhora da carrinha branca era a única que lá estava quando chegámos. Assim que nos viu sair do carro, falou-nos das suas malassadas, o doce regional que tinha estado a fazer de manhã cedo e que são as melhores ali das redondezas.
Ainda com o almoço bem vivo na nossa memória e a boca a saber a bombons artesanais, comunicámos suavemente que primeiro iríamos às Pedras Negras e as malassadas ficariam para o regresso. Só cá para nós,  a esperança era que a senhora se fosse embora. Mas não foi!
Contra factos não há argumentos e, se a senhora fez boa fé na palavra dos continentais, a única coisa que os continentais tinham a fazer era honrar a palavra dada.
Uma malassada para cada um, por favor.
Enquanto a senhora ia preparando os guardanapos e pegando delicadamente em cada uma, ia fazendo a melhor publicidade possível ao seu produto. 
O que nos entregou para as mãos foi uma iguaria fofa, a saber a laranja, enrolada em açúcar e canela e tão fresca que, se a senhora não tivesse garantido que se tinha levantado cedo para as fazer, diria que tinham sido fritas enquanto fomos ao miradouro.
Saboreámos cada dentada, dissemos muitas vezes "tão bom" e, quando olhámos para trás, a senhora tinha ido embora na sua carrinha branca. Estas eram as últimas que tinha para vender para poder regressar a casa.
Malassada virou palavra mágica para fazer suspirar e crescer água na boca.


Direitos de imagem: povoacense.blogspot.pt 



Estamos a visitar: SÃO MIGUEL - AÇORES - PORTUGAL    


ÁLBUM DIGITAL - CANADÁ, COSTA OESTE

 As capas não são uma escolha casual entre as melhores fotos. O processo é feito exactamente ao contrário, isto é, durante a viagem vão sendo logo tiradas fotos nossas em pontos estratégicos "porque pode dar uma boa capa". Depois é só escolher o lugar mais impactante e que melhor represente o que está lá dentro, "et voila".

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Este álbum trouxe alguns desafios que tentámos ultrapassar com criatividade.
Uma actualização na aplicação da Hofman a meio da composição veio acrescentar duas meias folhas editáveis, uma sugerida para ser usada como abertura e outra no final para fecho.
Esta agora!
Concordámos que a abertura tinha que ser tão grandiosa como as montanhas, mas nenhuma montanha engrandece apenas em meia folha. Tinha que ser tão espectacular como os lagos mas... espectacularidade apenas em meia folha?... a opção também não era um lago. Tinha que ficar bem feita de forma a não diminuir em nada o trabalho do nosso zeloso guia.
Zeloso guia? É isso mesmo!
Na entrada das montanhas, preocupado com a nossa segurança, ensinou-nos o que fazer no caso de um possível encontro inesperado com um urso pardo e é isso que partilhamos com todos na página de abertura do álbum que explora o território dos Grizzly.
Para poupar o trabalho de ter que aumentar a foto, faço aqui a transcrição desta lição de vida selvagem cheia de pertinência.



Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Voámos de Toronto para Calgary. Sempre são umas horas de vôo.
Havia quem perguntasse por que é que não fomos de autocarro.
Explicou o guia que a distância é tão grande e a solidão tamanha que, se tivéssemos a sorte de encontrar uma vaca durante a jornada, quereríamos abraçá-la, tal seria a saudade e a alegria de, finalmente, ter encontrado um ser. Contra factos não há argumentos e lá fomos em vôo interno como estava previsto e como tinha que ser.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Chegámos tarde e fomos directos ao hotel tomar posse dos nossos quartos. Quartos? Apartamentos!
Era um quarto e mais outro e uma sala de estar e uma cozinha que até máquina de lavar roupa e lavar loiça tinha.
A hora já ia adiantada, a cozinha do hotel já tinha fechado, mas o Chef não se foi embora sem deixar um buffet de pratos frios. Ele sabia ou alguém lhe disse que "quem dorme sem ceia, toda a noite esperneia".
E por que é que eu estou a contar isto tudo?
Porque disto o nosso álbum não fala.




Fala dos rodeos que acontecem anualmente na cidade e do quanto nos divertimos a dominar bravos animais de bronze.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Testemunha o quão importantes foram os Jogos Olímpicos de Inverno 1988 para o desenvolvimento da cidade e de como as infraestruturas continuam a ser usadas até hoje, tanto de inverno, como de verão.
Fomos, experimentámos e os canadenses são gente tão acolhedora, que nos deixaram ganhar e fazer um pleno de um podium todo em português
☺
.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Não costumamos "gastar" folhas dos nossos álbuns com refeições mas, lembram-se da série "Uma casa na pradaria"?
Pois é, estava lá tudo: a casa; a pradaria; as cercas de troncos de árvore; os cavalos; a carrocinha com toldo em lona branca para passear as senhoras; as senhoras com aqueles vestidos que resistem incólumes a qualquer aventura... e os rapazes.
Os rapazes andavam trajados a rigor na sua função de rancheiros e serviam à mesa.
O almoço foi churrasco com molho barbecue, do verdadeiro, do americano, acompanhado com Coca Cola da melhor colheita e terminou com um doce e um café, tudo servido em loiça muito tipicamente rústica, igualzinho à "Casa na pradaria". Já tínhamos estado tão perto e foi aqui que nos sentimos realmente próximos dos Estados Unidos, com a vantagem de estar no Canadá.
Mas há sempre cenas que não ficam no filme, nem nas fotos e muito menos no álbum.
A meio do almoço, já os calores do molho barbecue e os vapores da Coca Cola subiam ao cérebro e os meus companheiros de mesa iniciaram uma teima acerca da idade do rancheiro de aspecto mais novo que servia à mesa.
Sabem aquelas teimas que já só acabam quando a verdade as esmagar e que sobram sempre para alguém? Pois é, sobrou para mim.
- Tu que falas inglês é que devias perguntar a idade ao rapaz e acabar já com isto. - dizia um.
- Isso é que era - dizia a outra.
Eu? Mas eu nem queria saber a idade do rapaz!
O calor do molho barbecue, os vapores da Coca Cola, a vontade de lhes agradar e acabar com a teima desatou-me a língua e, vai-se a ver, nem um nem outro tinha razão. Não eram 16 nem 21, eram só 18... e foi assim que o peso nas nossas consciências de tamanha intromissão livrou o rancheirinho de uma selfie tuga e de aparecer no álbum.
Antes de vir embora ainda tivemos tempo para conhecer a versão empalhada da fauna que estava à nossa espera nas montanhas que vinham já a seguir.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Eis a parte mais difícil de compôr.
Uma cidade é uma cidade: uma catedral; um jardim; a Câmara Municipal... enfim, a diversidade ajuda a fazer a alternância.
E quando é natureza? Como é que se combinam montanhas com montanhas, lagos com lagos, rios com rios e ainda se consegue transmitir o fascínio que tudo nos causa quando estamos lá?
Falta a banda sonora que o guia escolheu estrategicamente para cada lugar e que combinava na perfeição, faltam as brincadeiras, as gargalhadas, os cheiros, os sons... e o espaço. Os álbuns nunca têm o espaço suficiente para tanta memória!
Foram horas de discussão, experiências, pôr e tirar, avançar e retroceder, até que chegássemos ao formato do consenso.
Depois de visitar e colocar em papel brilhante as Montanhas Rochosas, há duas informações que gostaria de partilhar:
1 - Ir ao Canadá sem ir às Rochosas não é conhecer o Canadá;
2 - Conhecer o Canadá pelas fotos de um turista, não é ir às Montanhas Rochosas.

Convidados para o lago, mas não para o casamento.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Um lugar ao sol, mas em bom.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Ursos, alces, pumas e linces

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Na peugada do urso pardo

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Louise em homenagem à 4ª filha da Rainha Vitória

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


O número diário de visitantes é limitado e rapidamente atingido. Ufa!!!

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Sem comparação, sem filtros, sem palavras.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Ao nível da água vê-se claramente o fundo do lago

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Escorregadelas, arrepios e muitas gargalhadas

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Fotos aos hotéis, tiramos. Sempre! A todos! Mas depois nunca entram nos álbuns, a não ser que...

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

 
Álbum digital - Canadá Costa Oeste 


Tínhamos escrito no programa de viagem que o almoço deste dia havia de ser uma espécie de piquenique algures no caminho entre o hotel de onde saímos e a ilha de Vitória.
Expectativa em relação ao local de almoço, zero.
Fomos parar a esta pequena cidade que não tinha nome no programa, que nem sequer era para ficar para a história mas que, por conta de tanta estatuária em madeira, acabou a ocupar uma folha num álbum onde o espaço andou sempre à briga com o número de fotos.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Gostámos de Victoria. Até se pode dizer que gostámos de tudo em Victoria.
O nome da cidade vem do da rainha e, tirando a homenagem mais que justa a Terry Fox, sente-se a presença do legado da monarca em todo o lado.
Victoria fica numa ilha e, como qualquer ilha que se preza, brindou-nos com uma manhã de nevoeiro, só para dar um ar ainda mais British.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Todas estas flores representam as largas centenas de fotos que tiramos em cada viagem e que depois acabam a ser armazenadas em qualquer disco externo sem nunca chegarem a ver a luz do dia.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Vai ficar para a história desta viagem aquele momento em que, como as prometidas baleias que povoam o canal marítimo entre Vancouver e a Ilha de Victoria não apareciam, o operador do selfie stick resolveu iniciar um vídeo.
Estava tudo a correr bem! Tão bem que eu até achei que podia ajudar a dinamizar a cena com comentários adequados ao momento. E consegui.
Baralhou-se-me a geografia toda (juro que não foi de propósito) mas, o resultado foi tão hilariante, que roubou todo o protagonismo ao take 2 já com tudo certinho e patrocinou esta folha a mais no álbum, que há-de sempre trazer à memória a minha tentativa falhada de repórter de exteriores.

Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Cada um lá terá a sua sequência para editar um álbum mas, quando se chega à última cidade já se está muito mais descansado. Já coube tudo o que era importante e com o destaque que lhe quisemos dar e agora até já pudemos esbanjar.
Com as imagens que tínhamos e com a cidade que é Vancouver, nunca é esbanjar. Foi fechar este país fantástico que é o Canadá com chave de ouro.
Bem, se calhar, também não é fechar.
Ficou-nos a fazer crescer um formigueiro cá dentro aquela vista sobre a ponte e a saída à hora do pôr do sol dos cruzeiros para o Alaska.
Querem lá ver que ainda temos que voltar a Vancouver?

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Álbum digital - Canadá Costa Oeste

Os nossos álbuns quase sempre terminam numa única foto a ocupar todo o espaço de duas páginas, mas este não ia poder ser assim.
Já dissemos que, a meio da composição fomos "apanhadas" por uma actualização da aplicação que passou a prever uma primeira página para introdução e uma última para conclusão.
Ficámos muito contentes quando, de repente, nos lembrámos da lição de vida selvagem que o nosso guia nos tinha ensinado e de como ficava mesmo bem na primeira página.
Depois atirámo-nos à composição do álbum e não quisemos nem sequer pensar no que fazer com a página do final antes de lá chegar. É que não tínhamos ideia nenhuma e parar para pensar nisso só ia atrapalhar.
Mas um dia a edição do álbum chegou ao fim. E agora o que é que fazemos com a última página?
Dissemos uma chuva de disparates e, de boas ideias, nada.
Virámo-nos outra vez para os ensinamentos do nosso guia. Tinha dito tanta coisa, tinha-nos ensinado tanto, era tão bem disposto, contava coisas tão divertidas...
- Só se nós recuperarmos aquela história do primo argentino em Toronto!
- Oh, não! Ela lembrou-se do que eu já tinha pensado e que tinha medo que ela se lembrasse. É que a ideia era tão louca... agora tem que ser.
Trata-se de uma rábula à volta da vida de um argentino emigrado em Toronto que vai escrevendo cartas a seu primo que ficou na Argentina a contar como é viver no Canadá.
As primeiras cartas são de deslumbramento mas, à medida que o inverno vai avançando, o relato e a linguagem vão ficando cada vez mais amargos, até que o argentino decide voltar para a sua terra.
Conhecer o "primo argentino em Toronto" foi um dos momentos hilariantes da viagem e justifica plenamente a tarefa que foi traduzir e re-arrumar o texto a partir do vídeo da rábula no YouTube.
Porque considero que qualquer pessoa que esteja interessada em ir viver para o Canadá deve ver este vídeo primeiro, deixo-vos o link, ou então, pode ser aqui já em português.


Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Estamos a visitar: CANADÁ DE COSTA A COSTA

DIÁRIO DE UM ARGENTINO EM TORONTO

12 de Agosto
Hoje mudei-me, por fim, para a minha nova casa em Toronto. Que paz que há aqui! Que campos verdes! Estou impaciente para ver as colinas cobertas de neve. Que bom ter deixado para trás o calor, a humidade e os mosquitos. Isto sim, é vida!

14 de Outubro
Isto é o mais lindo que vi na minha vida: as cores das folhas; passear pelos bosques... esta manhã vi um alce. Que animal tão lindo! Ostenta suas hastes como se fossem uma coroa! Sem dúvida, o rei do bosque! Canadá é o paraíso! Pensar que sofri tanto naquele inferno que é Santa Fé.

2 de Dezembro
Esta noite nevou. Que alegria! Parecia um postal! Saí para brincar na neve e, estava tão contente, que me rebolei nela. Depois fizemos uma guerra de bolas de neve com os vizinhos. Que lindo é viver aqui!
O limpa-neves passou e tive que voltar a limpar a entrada da casa... mas estou feliz!

22 de Dezembro
Esta noite nevou outra vez. Assim que acabei de apanhar a neve, passou o limpa-neves e atirou neve suja para a frente da minha casa. Estou um pouco cansado de apanhar neve. Telefonei ao meu primo em Santa Fé e ele ia para a praia com a família...

25 de Dezembro
Feliz Natal! Aqui não pára de cair esta m*** branca. Tenho as mãos cheia de calos por causa da pá. Acho que o limpa-neves me vigia e, assim que termino de limpar, ele volta e atira-me neve para a entrada de casa. Cago para o limpa-neves e para o trol que o maneja.

31 de Dezembro
O cornudo da meteorologia voltou a enganar-se. Em vez de 30 caíram 98 cm de neve. Aqui não se pode festejar o Ano Novo. Ninguém pode sair de casa por causa da porcaria da neve. Estou cansado e sinto-me sozinho. Voltei a telefonar ao meu primo e não me atendeu. Estava com uma bebedeira de cerveja depois de um churrasco de leitão no quintal. E eu aqui sem poder deitar o nariz de fora.

20 de Fevereiro
Hoje saí para ir ao supermercado. Pelo caminho atravessou-se na minha frente um alce e, tentando esquivar-me dele, bati numa árvore. M*** para esse filho de p*** desse animal. Estou convencido que Deus criou os alces para tramar as pessoas. Os caçadores já os deviam ter caçado a todos.

02 de Março
Ontem escorreguei na neve e parti uma perna. Depois o filho de p*** do limpa-neves voltou a passar e tenho neve à porta até ao cu. Quero vender a casa para poder ir à m***.

23 de Abril
Já me tiraram o gesso. Ligou o mecânico e disse que a reparação do carro vai custar o dobro porque tem o chassis podre por causa do sal que se usa para derreter esta neve de m***. Cago no carro, na neve, no mecânico e em toda a população de Toronto.

15 de Maio
Hoje, por fim, vendi a casa a um canadense cornudo. Mas a quem é que lembra vir viver para esta m*** fria e solitária?! Amanhã volto para Santa Fé. Não vejo a hora de voltar a desfrutar do calor, da humidade e dos mosquitos. Assim que chegar vou comer uns camarões e beber uma cerveja com o meu primo. Isso sim, é vida!



Álbum digital - Canadá Costa Oeste


Estamos a visitar: CANADÁ DE COSTA A COSTA




MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA PARA UM ENCONTRO COM UM URSO GRIZZLY

1 - Não entre na floresta sozinho. Vá em grupo e conversem. Quanto mais barulho fizerem menor a probabilidade de um encontro. 
2 - Se for sozinho, leve um guizo pendurado na mochila. O som agudo do guizo é desagradável aos ouvidos do urso.
4 - Se não tiver guizo, cante. O que importa é fazer barulho
5 - Se, mesmo assim, o urso aparecer, não demonstre medo, enfrente-o. Grite, levante os braços, faça-se grande e nunca lhe vire as costas nem corra.
6 - Se ele se aproximar, dê-lhe um murro no nariz. Um murro no nariz deixa o urso desorientado. Aproveite o momento para se afastar e tentar pôr-se a salvo.
7 - Mas, se não resultou e o animal abrir a boca, então não perca tempo, enfie a sua mão pela boca a dentro até à cauda e vire o urso ao contrário. 
8 - Aproveite que ele ficou finalmente imóvel e regresse cauteloso, atento, pelo mesmo caminho de entrada, mas confiante, agora já sabe virar ursos ao contrário.

Assim contou Pascal Lacroix - o nosso guia


CANADÁ


Estamos a visitar: CANADÁ DE COSTA A COSTA

A CALDEIRA QUE ADIVINHA O TEMPO - CALDEIRA DE PÊRO BOTELHO - FURNAS - SÃO MIGUEL - AÇORES

Começo por esta porque é a que não pode passar despercebida e, no meio de tantas, até pode ser que passe. A não ser que ela, a caldeira, não esteja nos seus dias. E se ela não estiver nos seus dias, então os dias também não estão muito bons para nós.
Passo a explicar antes que resolvam tirar já o Vale das Furnas dos vossos planos.
Tudo tem a ver com o barulho que a caldeira fizer. Pode ir desde o murmúrio das ondas do mar até ao trovão, depende do tempo que está para vir. Quando o barulho aumenta, o mau tempo vem a caminho, quando o barulho diminui, é porque o bom tempo está de volta. 

Caldeira de Pêro Botelho - Furnas - São Miguel - AÇORES



LENDA DA CALDEIRA DE PÊRO BOTELHO

Há muitos, muitos anos, os homens e as mulheres do lugar das Furnas vinham à Chã das Caldeiras cozer milho, cozer vimes, fazer barrelas de roupa e aproveitar as lamas medicinais da caldeira de lama.
Entre eles vinha Pêro Botelho, um homem muito mau e de muito mau feitio, de quem ninguém gostava.
Um dia, ao debruçar-se para recolher argila, Pêro Botelho escorregou e caiu na caldeira. Nunca mais foi visto.
O povo, que chamava à caldeira"boca do inferno", acreditava que, por ser tão mau, Pêro Botelho não tinha caído, tinha sido o diabo que o tinha vindo buscar e continuou a ir à caldeira retirar lama para mezinhas de vários males, principalmente reumatismo.
Havia dias em que juravam que ouviam a voz rouca e enfurecida de Pêro Botelho a gritar pedindo que o tirassem dali.
Tanto acreditavam que o ouviam que, algumas vezes, se puseram à boca da caldeira a chamar por ele. A resposta eram golfadas de lama sulfurosa fervente que atiravam pedras.
Mesmo com muito medo, continuaram a retirar lama medicinal da caldeira que passou a ser conhecida com o nome do malvado Pêro Botelho.

Caldeira de Pêro Botelho - Furnas - São Miguel - AÇORES
Caldeira de Pêro Botelho - Furnas - São Miguel - AÇORES